sexta-feira, 20 de junho de 2008

No rosto de uma criança reside a poesia.


Nos olhos o temor próprio da idade. Uma camara reflex, o silvo de focagem, o brilho da objectiva, são novidades que aguçam a curiosidade, mas infundem o temor. A proximidade da mãe descansa e apazigua os receios. Uma mãe é uma mãe, em qualquer parte do mundo. É calor, é protecção, é familiaridade, é amor, é sustento.

Os olhos curiosos, tentam abarcar tudo num mesmo olhar. E aprendem. Aprendem, ávidos de conhecimento e novidade. O cérebro, nesta idade, é permeável ao ambiente externo e é influenciável. Nesta idade somos o que nos rodeia, somos o que nos ensinam. O sentido crítico ainda não existe.

São estas crianças de África que podem fazer a diferença. Saiba-se aproveitar o período da infância e prover a estas crianças com a educação, a saúde, o direito a brincar. Afinal são direitos há muito consignados no mundo. Que esperamos para aplicá-los?

A obra.


A obra da construção da Ponte de S. Vicente, na Guiné-Bissau regista novos progressos, sendo já possível ver a super-estrutura a destacar-se da superfície do rio Cacheu. Maciços de encabeçamento das estacas, pilares, aduelas, carrinhos de avanço em montagem. Nunca a progressão é a que desejamos, mas cá vamos avançando com firmeza, e segurança.

A estação das chuvas já leva quase um mês, e o céu adquire muitas vezes este tom pardacento e pesado.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

A Guiné-Bissau e os conflitos civil-militares.



Vem este post a propósito da leitura de um excelente livro, essencial para a compreensão do conflito de 7 de Junho de 1998 na Guiné-Bissau, que opôs o presidente Nino e o seu governo a uma força rebelde, auto-denominada Junta Militar.
Comprei este livro no aeroporto da Portela, em Lisboa, no exacto dia, em que, após o Natal e festa de Ano Novo, viajei de novo para cá. Uma pausa para comprar tabaco (esse vicio execrável, que nos torna, na actualidade, criminosos aos olhos da sociedade…), e eis um título que me chama a atenção. A viagem é para Bissau, e o título “Bissau em chamas – Junho de 1998), não podia deixar de captar-me a atenção. Pareceu-me coincidência, mas talvez não o seja – em cada viagem que faço a Portugal, sempre me abasteço de exemplares dos mais variados géneros literários, pelo menos quatro por cada mês que tenciono cá passar. A leitura e os livros sempre me encantaram, desde o dia (o dia exacto, eu lembro-me!) em que comecei a ler e o mundo, de repente, começou a fazer sentido para mim. Nesta busca constante do conhecimento na forma impressa, uma forma de ver o mundo subindo aos ombros de gigantes, não há coincidências, mas antes uma busca aturada, apaixonada e paciente.

O livro foi escrito por Alexandre Reis Rodrigues e Américo Silva Santos, e está editado pela Casa das Letras. Li-o quase de um fôlego. É despretensioso, no sentido literário do termo, e pretende apenas esclarecer a acção portuguesa no conflito de 7 de Junho na Guiné-Bissau, nomeadamente o resgate de cidadãos nacionais. É um livro exacto, numa versão de militares, em missão de paz. Mas pelo meio, inevitavelmente, esclarece em termos históricos as razões do conflito, as suas consequências e desfecho.
E percebe-se, nas linhas e entrelinhas, quem realmente sofreu com este conflito, aliás, quem sempre sofre com estes conflitos: o povo. Nos guineenses com quem falo, estão bem presentes os tempos que viveram, a fome, o medo, a solidariedade da grande família guineense. Enquanto as posições se endureciam, e o governo e Junta Militar, recusavam, numa fase inicial, qualquer hipótese de diálogo ou solução para o conflito, o povo abandonava Bissau e via a sua vida assumir contornos ainda mais precários do que os habituais.
O conflito destruiu o país, arruinou as suas já precárias infra-estruturas, arrasou a economia e a ninguém aproveitou. Um conflito desta ordem, apenas pode ter um ponto positivo: proporcionar a reflexão, a análise de como se pode em 11 meses destruir um pequeno país e mergulhá-lo em décadas de atraso e miséria. Mas essa reflexão, no meu ponto de vista, não está feita.
A foto que encima este post retrata três crianças nascidas pós-conflito. Nos rostos, a inocência, a esperança, a galhardia própria da idade. Saiba-se olhar para estas crianças e perceber que o seu futuro fica irremediavelmente comprometido, sempre que políticos e militares pensam apenas no seu orgulho e em manter o seu modo de vida e poder.
A Guiné-Bissau é dos guineenses e estes merecem que quem governe o país, goste tanto dela como eles próprios. Saiba-se reconstruir a Guiné aos poucos, mas com firmeza, anulem-se as hipóteses de novos conflitos e, dê-se aos guineenses aquilo que eles mais desejam: A Paz.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Estado Actual da Obra


A obra da Ponte de S. Vicente prossegue em bom ritmo. Dificuldades, há-as sempre, as inerentes a qualquer obra, e as específicas de se construir num país, por agora com parcos recursos. Mas as dificuldades ultrapassam-se e, como dizia o poeta Fernando Pessoa, "...o homem sonha, a obra nasce."
As fotos, acima apresentadas, ilustram o estado actual da obra. A primeira refere-se à ponte na margem do lado de Bissau e a segunda ao seu desenvolvimento no rio, rumo a Ingoré.

Ultimam-se as fundações no rio Cacheu, betonam-se encontros, sapatas, pilares. Todos os dias algo de novo acontece e, tal como um pião que começa a rodar, a obra adquiriu já movimento próprio, a sua própria cadência. É esta fase que encanta, a fase em que deixamos de "forçar" a obra a avançar e é a própria obra que nos impele, qual caravela quinhentista ao sabor dos ventos e em busca dos novos mundos.
Há sempre qualquer coisa que nos perturba e, ao mesmo tempo, nos encanta, na criação.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Notícia de última hora! O Pai Natal esteve em S. Vicente.

Desengane-se quem situa o Pai Natal na Lapónia, ou no Polo Norte, regiões conhecidas pelo seu clima rigoroso. O Pai Natal é universal, e não há recanto do mundo, por mais recôndito que seja, que não conte com a sua presença, alegrando as crianças, com a sua presença e ofertas.

Em Dezembro de 2007, o Pai Natal esteve na Guiné Bissau, na localidade de S. Vicente. Chegou afogueado, suado do calor e da vestimenta adaptada apenas a latitude mais elevadas, mas chegou e espalhou felicidade.

A noticia da sua vinda foi-se espalhando, e a pequenada de S. vicente, pouco habituada a estes costumes, foi-se interessando e aguardando ansiosamente a sua vinda. No dia da sua chegada, começaram a chegar ao estaleiro da Soares da Costa, cedinho, em grupos, trazidos pelos pais, irmãos ou simplesmente sozinhos. Chegaram envergando as suas melhores roupinhas, lavados, de olhos abertos, a surpresa estampada no rosto. Chegaram contentes, receosos ainda, mas expectantes. O Pai Natal ia chegar a S. Vicente, talvez pela primeira vez nas suas curtas vidas.

E chegou. Chegou, e logo o bando de meninos e meninas, perfilaram á sua frente, se sentaram no seu colo e conheceram o Pai Natal, que a todos conhece e que, de todos se lembra.

O Pai Natal trazia uma lembrancinha para cada menino, um brinquedo e um pequeno lanche. Como conseguiu com renas habituadas a climas frios, transportar tanta coisa para os trópicos ainda é um mistério, para mim. Mas tenho a suspeita que a empresa Soares da Costa deu uma ajuda. è que, apareceram mais meninos que os previstos nos registos do Pai Natal. Mais de 300 crianças compareceram no Estaleiro do Soares da Costa e para todas houve lembranças.

Foi um momento mágico, emocionante e impressionante no seu todo que a todos nos tocou profundamente. Afinal o Natal é quando o homem quiser, e, afinal, o Pai Natal é mesmo universal.
Esperamos que este pequeno gesto, em que todos participamos, toque um pouco a vida destas crianças, que têm tão pouco no dia a dia, e que, em Dezembro de 2007, souberam que o Pai Natal não os esqueceu.

Vicentina - O novo membro da grande familia da Obra da Ponte de S. Vicente


Desde Dezembro passado que a grande familia da Obra de S. Vicente, na Guiné Bissau, conta com um novo e surpreendente membro. O seu nome é Vicentina, tem uns poucos meses de idade, e uns belos e sedutores olhos castanhos.
A Vicentina rapidamente nos seduziu, com o seu ar frágil e inseguro, e a sua graciosidade propria das gazelas.

Dada a sua tenra idade, foi no ínicio da sua estadia alimentada a biberão, com toda a paciência e desvelo. Presentemente, mais arisca, mais confiante, já se desloca pelo estaleiro, comendo tudo o que é verde no jardim, e confraternizando com a restante equipa técnica.
A Vicentina é agora a mascote da obra e já faz parte das nossas vidas, com o seu ar que desperta ternura.

domingo, 16 de dezembro de 2007

Da Guiné... à Guinada



Não tem sido fácil para qualquer um de nós, em algumas situações, a habituação a esta terra. Não sei se pela temperatura, muito calor, se pelo clima, se pela alimentação ou se por outra razão qualquer. Sei, isso sim, que amiúde lá se vai ouvindo aqui pelo estaleiro e pela obra o pregão já usual entre as "tropas" "...estou com uma guinada, vou enviar um fax...".
Alturas há em que o "quartel" regista uma afluência invulgar de solicitações o que provoca um engarrafamento das "linhas". Temos já entre nós alguns verdadeiros campeões de "guinadas", autênticos atletas de velocidade e meio fundo. Outros há que em pouco tempo, se notabilizaram nas artes plásticas tal é a dedicação que entregam à "pintura".
Mas reflectindo um pouco, talvez isto aconteça normalmente e não seja estranho uma vez que estamos na Guiné. Se por acaso estivéssemos em Punta-Cana talvez se utilizasse outra expressão como "...estou com uma puntada..." ou outra coisa do género "...vou aliviar o canastro...". Não sei. Talvez.

Por isso da Guiné, só Guinadas...


Mas graças a Deus que temos aqui uma BOA EQUIPA.






domingo, 2 de dezembro de 2007

Fanado – Cerimónia de iniciação masculina na vida adulta



O fanado é uma cerimónia de iniciação na vida adulta, para rapazes, praticada, ainda na actualidade, entre a tribo dos Balantas. Os fanados já foram mais frequentes. Na actualidade são mais raros, dadas as precárias condições de vida deste povo e a cerimónia pressupor o consumo abundante de géneros alimentares, como o arroz e bebidas. A foto que acompanha este texto foi tirada a um grupo de Balantas, em alturas desta cerimónia.

Eis como Eva Kipp (Guiné-Bissau: aspectos da vida de um povo, EDITORIAL INQUÉRITO, 1994), descreve a cerimónia:

Normalmente, é o pai quem decide enviar o filho ao fanado ou, na sua ausência, o irmão mais velho; mas por vezes são os jovens que pedem para ir, desde que o irmão mais velho já tenha ido.Nas vésperas do início do fanado, realizam-se várias festas e uma das mais interessantes é um concurso de canto e dança entre os diversos grupos que irão participar no mesmo. Cada grupo escolhe no seu seio o melhor artista, na dança e no canto. Durante todo o dia, esses artistas exibem-se na tabanca, simultaneamente, procurando arrastar atrás de si os espectadores. Assiste-se a correrias dos artistas que procuram arrastar as pessoas interessadas na sua actuação em detrimento dos outros concorrentes.
Cada um procura fazer o melhor que pode no canto e criar improvisações teatrais mais interessantes.Ao fim da tarde, há um dos concorrentes que consegue arrastar atrás de si praticamente todos os presentes. É o grande vencedor do concurso e o mais famoso dos que irão entrar no fanado.Nessa tarde, todos os que vão ao fanado comem a última refeição em casa, desaparecendo em seguida no mato sagrado, onde irão permanecer durante quase dois meses. O que acontece lá durante esse tempo é um segredo que nenhum deles poderá desvendar após a saída, mas sabe-se que, para além da circuncisão, eles têm de dar provas de poder passar a adulto e aprendem a nova forma de estar na sociedade no pós-fanado.No dia em que regressam do mato sagrado, realiza-se na tabanca uma grande festa e os que regressam do fanado recebem diversos presentes dos familiares e amigos. É a partir desse dia que eles conquistam o direito de usar um barrete de cor vermelha que distingue os adultos que já foram ao fanado na sociedade balanta.É também a partir desse dia que o grupo de «blufos» da geração seguinte, jovens que ainda não foram ao fanado, começa o longo período que os conduzirá ao próximo fanado, porta de acesso à sociedade dos adultos.”

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Golfinhos no rio Mansoa

A Guiné-Bissau desenvolve-se, em mais de 80% da sua extensão, em termos orográficos, a cotas baixas entre 0-100 m. Por esse motivo os rios são largos, invadindo grande extensão das margens, com facilidade. Pelo mesmo motivo, a influência das marés faz-se sentir até várias dezenas de quilómetros para montante. As águas são salobras, salgadas mesmo quando a maré sobe. Com a corrente de subida da maré, é comum verem-se medusas em grande quantidade, provavelmente oriundas da costa marítima.
E, por vezes, a surpresa é maior, e podem ver-se os simpáticos golfinhos a brincarem num rio, no caso o Mansoa, a varias dezenas de quilómetros do mar. Uma surpresa sempre agradável, que aqui fica registada.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Apenas o céu...



Nada mais, apenas o céu. Que motivos procuramos, por vezes, para escrever, dizer ou pensar em coisas interessantes? Procuramos o que é novo, o que é de fora, o que é excitante. Procuramos a novidade, procuramos o que nos faz sentir maiores, sendo mais pequenos.


A busca da enriquecimento pessoal a isso nos impele. A mesma busca lançou os portugueses nas aventuras dos mares, a inventar mais pátria. A coragem faz-se do medo. E medo é coragem quando enfrentado. E o homem anseia mundo, anseia novidade, anseia crescer.


Não demos novos mundos aos mundos, eles estavam lá e apenas os colhemos, na ânsia de provar, de dizer "estou aqui".


Hoje trago-vos neste post uma coisa simples, um momento. Um momento que não se repete, um momento que a ninguém pertence. Apenas um momento, nem mais atrás, nem mais à frente. Apenas um momento.

O momento em que paramos, cristalizamos o tempo, e somos mundo e somos côr, e somos vida.

O momento que julgamos captar quando ouvimos o click da máquina; cruel ilusão, o momento capturou-nos...

"...E nós Carolina!..."

Confesso que não li o livro e posso afirmar, quase com toda a certeza, que nunca o irei ler.
Talvez por não dar valor algum a este tipo de personagens, que aparecem no meio do lodo e florescem á custa das "humidades" que esse lodo lhes proporciona. E logo desaparecem sempre que pantano seca.
Mas, como nós por cá ainda vamos escutando alguma coisa de Portugal, e esse é, infelizmente um tema da actualidade, eu resolvi solidarizar-me com outras tantas como ela, que raramente são noticia ou escrevem livros. Apenas faladas e lembradas, de longe a longe, no reino dos "beefs", por estarem "loucas".
Por isso, hoje, vou reservar um espaço a "elas", às vacas de Africa, que também têm o direito de dizer ....
..." E NÓS CAROLINA!..."

domingo, 18 de novembro de 2007

Ponte S. Vicente - Sinalização Índice A

Qualquer projecto, por mais analisado e controlado que seja, tem normalmente alguns erros e ou omissões, que só são detectados durante a fase de execução. Esses erros ou omissões detectados são assinalados e comunicados ao projectista para que seja feita uma correção ao desenho, atribuindo-se um novo índice. Este processo, por vezes, é um pouco demorado porque existem varias trocas de correspondencia entre as partes envolvidas no projecto.

Mas na Guiné-Bissau, ao contrário do todos pensavamos, este processo necessita apenas de umas horas.
Quando começamos com a construção do estaleiro de apoio á ponte de S. Vicente, tivemos alguns problemas, relacionados com a demora da chegada de materiais vindos de Portugal. Alguns desses materiais eram sinais de transito para sinalizar as obras em curso.
Mas havia que colocar "mãos á obra" e com ou sem sinais de transito os trabalhos não podiam parar e com um "projecto de recurso" tudo se foi resolvendo.
Na entrada norte do estaleiro o "projectista/guarda" (ver foto) que desenhou a "sinalização provisoria", no seu desenho de emissão - Índice 0, ao colocar a inscrição " I S.T.P " gerou alguma confusão nos trabalhadores que ali passavam. Uns diziam em crioulo
..." i Só Trabalhadores do Ponte"
..." i Só Trabalha Pouco"
..." i S'eu Tambem Pidi"
..." i Só Trabalhador Preto"
..." i Só Transito Pesado"
entre outras coisas mais.

Mas o nosso "projectista/guarda", ao ver a confusão, rapidamente faz uma correção ao seu projecto e no desenho - Índice A mudou a inscrição para " I S.ToP ", o que fez sossegar as pessoas.


O estaleiro esse está montado...




sábado, 17 de novembro de 2007

A água, ainda e sempre, um bem essencial…


A Soares da Costa, responsável pela construção da Ponte de São Vicente, sobre o Rio Cacheu, na Guiné-bissau, fornece, diariamente, à população que vive em volta do seu estaleiro, cerca de 15.000 litros de água. Trata-se de um bem essencial, e que na área, não é abundante, pelo menos nas necessárias condições de potabilidade.
A foto ilustra o primeiro dia, em que ainda não estava montado sistema de tubagem e abastecimento, mas em que a pequenada guineense, aproveitou o improviso de um tubo solto para se refrescar num quente dia de sol.

Um porco a andar de bicicleta


Costuma dizer-se que acreditamos em tudo depois de vermos um porco a andar de bicicleta.
Na Guiné-Bissau podemos mesmo acreditar em tudo e que, em cada dia, haverá sempre uma novidade mais surpreendente do que as dos dias precedentes. A foto ilustra um porco a andar de bicicleta. Será que, por o dito suíno ir no lugar do pendura, a situação não conta para a nossa credulidade total?
Pode não contar, mas podemos sempre dizer alto e bom som que “vimos um porco a andar de bicicleta”, mesmo que o pobre suíno não pedale, nem toque a campainha…

Vamos à Foz do Douro


Pois é! Surpreendente, mas verdadeiro. A foto seguinte foi mesmo tirada em Bissau. Não soubéssemos exactamente onde estamos, e poder-se-ia dizer que vamos apanhar o autocarro para a Foz do Douro, em busca da frescura de um fino e de uns tremoços, numa esplanada à beira mar.
Não é o caso. Tratam-se de duas unidades vindas de Portugal, que ostentam ainda a pintura original dos STCP (Serviços de Transportes Colectivos do Porto) e que fazem viagens para várias localidades, das quais se destaca a carreira Bula-Bissau.
A razão para a manutenção da pintura original prende-se, provavelmente, com a falta de tinta, ou os meios para a adquirir. Ou será que a sigla STCP foi entendida, como era voz corrente no Porto (Portugal), como STCP – Somos Transportados Como Porcos
?

Talho de Safim


A foto acima ilustra o talho de Safim, onde nos abastecemos da carne para o nosso consumo diário. Tendo em conta o clima tropical da Guiné-Bissau, note-se que o talho está equipado com os mais modernos sistemas de ventilação. A carne é conservada nas condições mais próximas da natureza, estando, portanto, assegurado o seu bioconsumo, o mais perto possível da origem. Na limpeza do talho não se usam produtos do tipo detergente que poderiam alterar o sabor da carne.
Para nós, apenas o melhor…

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

CemFranco


Figuras típicas, todos os países, regiões, cidades e vilas deste mundo as têm. Se tivesse que votar numa figura típica da cidade de Bissau, uma boa parte dos meus votos iria certamente para o CemFranco.
O CemFranco é um miúdo franzino, não deve passar os 10-12 anos, que aparece em quase toda a cidade (não sei se tem o dom da omnipresença, mas suspeito que sim), vendendo bananas que transporta à cabeça, e o pregão imutável "cem franco, cem franco". Cem francos CFA e tornamo-nos os felizes e nutridos possuidores de 4 bananas. O CemFranco, pouco mais acrescenta ao pregão, apenas se lhe pode ouvir, numa ocasião ou outra dizer "banana muito boa".
Tem a sua personalidade, a sua pinta, o danado do miúdo! Será que não cresce, e ao longo de gerações é sempre o mesmo CemFranco que nos tenta vender bananas em Bissau? Não sei, mas se o Peter Pan for verdadeiro, voto para que o CemFranco o seja também, sempre menino, sempre inocente, e com freguesia para as bananas que vende.
Um dia destes, conto-lhe que está na Internet, e que quem quiser, no mundo inteiro, o pode ver e sorrir com a sua figura franzina de menino que apregoa: cem franco, cem franco...

A bicicleta camião


Na Guiné-Bissau, os transportes escasseiam. No entanto, a imaginação e engenho são férteis. Há que converter os poucos transportes existentes, em megatransportes que podem, numa só viagem, transportar a carga normal de duas ou três viagens. É habitual ver os camiões que chegam, vindos do Senegal, à Guiné-Bissau, ou em trânsito para a Guiné Conacri, carregados até limites inimagináveis. Menos raramente do que seria desejável, um camião tomba na estrada, vitima de uma curva suave, e de uma carga demasiado pesada.
Mas o esforço e imaginação de utilizar o mais eficientemente possível os transportes, não se fica pelos pesados. Até uma simples bicicleta, como se pode ver na imagem acima, desafia a gravidade e o bom senso para transportar mais carga em menos tempo. Aparentemente, o céu é o limite...

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Olhóóóó cafézinhooooo....



Em Bissau, na capital, as ruas e passeios fervilham de animação e comércio. Tudo se vende, tudo se transacciona, desde géneros alimentares conservados, por vezes, em condições precárias, a ferramentas, cartões de telemóveis, tabaco, cadernos, roupas, artigos para o lar, caju, mancarra (amendoim), bananas, mangas, etc, etc. Tudo se negoceia e, especialmente, o estrangeiro pode ter a certeza que pode comprar quase qualquer artigo pela sua metade do preço, excepção feita aos bens alimentares. É uma profusão de cores, cheiros, barulhos, gente e mais gente. Muçulmanos com as vestes tradicionais, vestes típicas da Guiné-Bissau, vestes ocidentalizadas, de tudo se vê por aqui.

Numa pausa, tempo para um cafézinho, com marca registada e uma forma de servir, no mínimo, curiosa. 100 Francos CFA (0,15 euros) e eis-nos de novo reconciliados com a vida...

Os transportes na Guiné-bissau




A opção melhor para um estrangeiro se deslocar na Guiné Bissau é sempre a viatura particular, de preferência com capacidade todo o terreno. Existe uma rede viária entre as principais localidades, alcatroada e em relativo bom estado. Fora destes acessos, a circulação faz-se por picadas, em terra batida que, especialmente na estação das chuvas, não são de fácil circulação.
Está muito vulgarizado uma espécie de táxi colectivo denominado “toca toca” cuja lotação máxima é “mais um”. É incrível o número de pessoas e a quantidade de mercadorias que um “toca toca” pode transportar. Frequentemente viajam com as portas de trás abertas e mais dois ou três penduras aí arriscam a vida, precariamente instalados.
Tratam-se de viaturas, do tipo van, originárias sobretudo da Europa, sucata na sua maioria, aqui convertidas em transporte colectivo e levadas até ao extremo máximo da sua utilização. Não raro, são desprovidas de travões.
Na capital Bissau e arredores pode-se ainda circular em táxis ligeiros, de cor azul e branca, normalmente Mercedes 190D, já no limite máximo e possível da sua vida como veículos. Porém, mais um pingo de solda aqui e ali, umas peças do ferro velho e, incrivelmente, continuam a circular. O pagamento da tarifa num táxi não garante a exclusividade da viagem, e o estrangeiro facilmente se surpreenderá ao constatar que durante a viagem o táxi vai recolhendo passageiros até ao seu limite máximo.
Uma outra curiosidade relativa a transportes públicos é a existência de autocarros dos Serviços Colectivos de Transportes do Porto e dos serviços equivalentes em Barcelona, que circulam ainda com as cores originais. Apetece, ao ver passar um, apanhar uma boleia para a Foz do Douro.